“Chega uma altura da vida em que não mais estamos à procura da felicidade. Isso significa, não saímos por aí procurando por alguém ou por alguma coisa que nos faça feliz. Nessa altura da vida procuramos apenas não ficarmos tão infelizes. Parece o suficiente, se for pensar calmamente. Até por que, há pouca diferença entre ser feliz e não ser infeliz. E confesso que seja até melhor apenas não ser infeliz. Não ser infeliz é a felicidade sem o sorriso no rosto. Tá tudo bem, só não precisa exagerar. É, também, a tristeza sem a lágrima nos olhos. Pode não ser o melhor momento, mas não vai abalar ninguém. Não ser infeliz é a realidade, o dia-a-dia das pessoas de verdade que estão ocupadas demais para pensar em sentimentos, sejam eles bons ou ruins. O sol não brilha para todos o tempo todo, pra isso existem as lâmpadas.”

— João Matheus
“Eram 19h43. Chegara em casa cansado de mais um dia duro e rapidamente foi-se deitar no sofá para relaxar um pouco. Olhando para a TV ligada sentia seus olhos pesaram e até, lentamente, se fechar.
O barulho de risadas de repente ecoou da cozinha, os passos de pequenos pés vinham em direção a sala acompanhados por também pequenos corpos saltitantes que, como duas bolas de canhão, acertaram o alvo deitado no sofá.
Mais risos.
Os três levantaram e foram até a cozinha, cada criança atracada em uma das pernas, e de lá pairava o cheiro do jantar que logo estaria pronto. Era a noite da panqueca. Um beijo rápido na bochecha da mulher que já estava tirando do forno o prato da noite.
Colocou os gêmeos na mesa e sentou-se em seu lugar, nisso a mulher já servia os pratos e puxava assuntos banais sobre o dia dela, das crianças e perguntava sobre o trabalho dele.
Comeram, falaram e riram.
Ao fim, a mulher levava os filhos para o quarto e, voltava para a sala ao encontro do marido, sentaram no sofá onde ficaram abraçados por tempo indeterminado.
Um barulho começou a ecoar pela casa, sem origem definida, ia aumentando gradativamente e se tornando mais irritante.
Abriu os olhos com a insistência do telefone que agora já parara de tocar, olhou para o relógio, 21h17, levantou-se do sofá e foi a geladeira resgatar algum congelado para jantar. Enquanto comia se lembrava do sonho, da mulher com quem nunca se casara e dos filhos que nunca nasceram.
Depois daquele sonho olhar para sua casa o incomodava, sentia-se vazio. Assistiu ao jogo na TV e foi deitar, a cama era fria demais, grande mais. A vida era demais para ele.
O sono chegava e o embalava para o próximo dia.
Um dia de trabalho.
Um dia de solidão.”

— João Matheus