“Eram 19h43. Chegara em casa cansado de mais um dia duro e rapidamente foi-se deitar no sofá para relaxar um pouco. Olhando para a TV ligada sentia seus olhos pesaram e até, lentamente, se fechar.
O barulho de risadas de repente ecoou da cozinha, os passos de pequenos pés vinham em direção a sala acompanhados por também pequenos corpos saltitantes que, como duas bolas de canhão, acertaram o alvo deitado no sofá.
Mais risos.
Os três levantaram e foram até a cozinha, cada criança atracada em uma das pernas, e de lá pairava o cheiro do jantar que logo estaria pronto. Era a noite da panqueca. Um beijo rápido na bochecha da mulher que já estava tirando do forno o prato da noite.
Colocou os gêmeos na mesa e sentou-se em seu lugar, nisso a mulher já servia os pratos e puxava assuntos banais sobre o dia dela, das crianças e perguntava sobre o trabalho dele.
Comeram, falaram e riram.
Ao fim, a mulher levava os filhos para o quarto e, voltava para a sala ao encontro do marido, sentaram no sofá onde ficaram abraçados por tempo indeterminado.
Um barulho começou a ecoar pela casa, sem origem definida, ia aumentando gradativamente e se tornando mais irritante.
Abriu os olhos com a insistência do telefone que agora já parara de tocar, olhou para o relógio, 21h17, levantou-se do sofá e foi a geladeira resgatar algum congelado para jantar. Enquanto comia se lembrava do sonho, da mulher com quem nunca se casara e dos filhos que nunca nasceram.
Depois daquele sonho olhar para sua casa o incomodava, sentia-se vazio. Assistiu ao jogo na TV e foi deitar, a cama era fria demais, grande mais. A vida era demais para ele.
O sono chegava e o embalava para o próximo dia.
Um dia de trabalho.
Um dia de solidão.”

— João Matheus